While my guitar gently weeps (21)

Paul bateu com o punho na porta de madeira norueguesa.
George atendeu, me parecia abatido, então ele disse que estava meio febril, mas que logo ia curar-se.
Entramos, eu, Paul e George. George logo se encolheu no sofá e se cobriu com um manto xadres. Paul encostou a mão na testa de George, ele não estava quente, porém estava doente.
-Onde está John? -Paul perguntou preocupado.
George tossiu, olhou-me.
-John está na cozinha. -Paul foi chama-lo.
Me aproximei de George.
-O que houve? Resfriado? -John vinha com Paul da cozinha.
-Sim, resfriado. Detesto... -George respondeu-me revoltado.
John entregou uma xícara de chá pra George. Tinha aroma de Morango e menta. Ele bebeu uns goles e olhou John. Pegou em sua mão e puxou-o pro sofá.
-As meninas tão assim agora? -Disse Paul, falando de George e John, olhando a mim. Sorriu.
-Que coisa mais amável! Lennon, você me vai legal! -Eu disse olhando John. George riu junto com Paul.
-Eu te vou legal?
-Sim, você não acha?
-Foi você que disse, não?
-Foi? -Eu disse colocando os dedos no peito, me fazendo de injustiçado.
-Foi. Perdi. Ok, querem chá?
-Eu quero, vamos buscar chá, Rich?
-Vamos, vamos, vamos e já voltamos, ok moças? -Olhei George e John, piscando os olhos. Abracei a cintura de Paul e fomos pra cozinha. De longe Paul quis saber de Cyntia.
John ficou quieto, deu pra ouvir George gritar. Eu olhei Paul assustado.
-Parece que ... er ... -Paul me olhou sem jeito.
-Vamos ficar aqui, até pararem de brigar lá.
Paul me olhou, sorriu e olhou em volta da cozinha.
-Rich, vamos ter uma casa assim também?
-Vamos, e ela vai ser azul, vai ter um quintal grande..
-E vamos ter filhos?
-Quer quantos? -Eu disse olhando pra cima, olhando Paul.
-Quantos podemos ter segundo a lei?
-Podemos esperar até deixarem?
-Eles tem que deixar?
-Tem... -Perdi. Nem ligo.
Voltamos pra sala. John terminava de dar chá ao George. George deitou e dormiu. Passei a mão na testa dele. Ainda estava quente. John disse que o chá faria a febre passar de manhã ou a tarde do dia seguinte. Paul sentou no outro sofá, sentei sobre as pernas dele, ele me abraçou. Olhei John. Ele parecia preocupado.
-Hey Jony, amanha ele já ta bem. Essas febres dele, passam num instante. -Eu disse tentando conforta-lo. Ele me olhou desanimado.
-Eu gosto dele. Mas ele é muito meu amigo.. -Ele disse olhando George.
-John, como está Mimi? -Paul perguntou com o som da voz abafado, lábios encostados em minha blusa.
-Tá bem, ela reclama, mas gosta de George, Ela foi as compras... Só sabe gastar. -Rindo.
-Que ela nos traga biscoitos e chá. -Paul disse.
-Que ela traga meu moet chandon. -John disse rindo.
John passava as mãos nos cabelos de George, eu sorri, escorregando pro lado de Paul. Paul também sorriu. John então parecia cantar. Era bem baixo, mas reparei que estava cantando. Cantando pra George. Olhei Paul, passei a ponta do dedo indicador na ponta do nariz dele. Sorrimos.
-Gente, eu não tenho nada pra oferecer, mas está frio. Vocês querem cobertas e sopa? -John disse meio abatido.
-Queremos sim... -Paul disse. John levantou e acenou, subiu as escadas. Paul olhou pra mim.
-Certeza que a febre dele passa?
-Acredita em mim?
-Acredito.. -Sorrindo preocupado.


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While my guitar gently weeps (20)

A tarde, George me ligou, cantando a musiquinha do Frankie Avallon. Eu o ignorei e disse que ele cantava bem, George calou-se e riu ao fundo, abafadamente como se não tivesse dito nada. Então era John, sua voz anasalada era como a voz das aeromoças. John tinha talento para aeromoça.
-As moças fugiram da festa, ontem?
-Moças? Você e o George?
-Tá perdi... Vocês vem hoje?
-Sim... Mimi vai estar?
-Sim, na cozinha fazendo doces.
-Ainda bem que não sou diabético.
-Por Deus, você já deve ter ficado.
-Por Deus, jogue praga em outro.
-Que horas as moças vem?
-As moças eu não sei, os moços vão as 5.
-Ah, tragam as moças.
-Nós temos ciumes de vocês dois.
-Também te amo, moça.
-Tchau...
Desliguei o telefone na cara de John, balançando a cabeça negativamente. Paul olhou-me e riu.
-O que disseram?
-Se as moças não vão pra lá... -Coloquei a mão na testa. -Tsc tsc tsc... -Paul veio em minha direção, sorrindo, pousou sua mão sobre a minha que estava em minha testa.
-As moças estão esperando agente? -Paul disse abaixando sua mão junto a minha.
-Acredito que sim... -Levantando a sombrancelha.
-Eles nos amam, Rich... -Pegou minha mão e sorriu levemente. Senti tanta serenidade. Segurei a mão de Paul e saímos pela porta. Descemos as escadas e fomos até a casa de John. Enquanto andavamos eu observei cada passo de Paul, cada gesto. Ele brincava com as árvores, as folhas estavam geladas, mas mesmo assim ele as tocava. Meus dedos congelavam também. Guardei uma das mãos no bolso e continuei olhando Paul. Mentalizei aquela cena pra poder lembrar quando não tivessemos um bom dia. Eu preferia não pensar na hipotese de um dia ruim, mas não pensar nisso é se iludir, então foi aí que me tornei um pouco menos 'cabeça nas nuvéns'. O céu estava azul, mesclado de cinza e havia rastros de neve da noite passada. Quando andávamos deixavamos nossas pegadas no chão. Paul olhou pra traz, viu as pegadas. Olhou pra mim e sorriu. Eu o olhei, largando suas mãos no ar. Segurei sua cintura e juntos fomos andando o caminho todo, pisando sob a neve, até a casa de John...
Na casa de John havia uma pixação, derepente alguns Hooligans teriam pixado, era algum insulto á gays. Enfim, fomos até a porta da casa de John.

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While my guitar gently weeps (19)

Chegamos a casa de Alvin e Ricky. John bateu na porta 'delicadamente'. Que pessoa delicada, meu Deus! Alvin abriu e acenou.
-Sejam bem-vindos a nossa humilde casa.
George olhou a casa e fez sinal negativo com a cabeça. John tapou os olhos e eu entrei com Paul. Quando já estavamos no interior da casa, olhamos pra fora e George ainda balançava a cabeça negativamente e John ainda estava com os olhos tapados. Alvin pediu pra que eles entrassem. Paul ria muito, com os lábios quentes encostados em meu ombro. Eu confesso que nunca gostei de calor, mas o calor que saía da boca de Paul era diferente. Era doce. Ainda bem que eu não tinha diabetes.
Por fim, George e John entraram. John olhou boquiaberto pro interior da casa. Eu olhei também e pensei: 'Humilde casa é a minha!'. Rory veio até mim e Paul. Eu perguntei.
-Que horas vocês vão tocar, nessa casa tão humilde? - Levantei a sombrancelha direita enquanto ainda olhava a casa 'humilde'.
-Já já o baterista chega. Eu gosto dele, mas ele atrasa muito. Sinto falta da sua pontualidade.
-Minha pontualidade de bebado, só se for essa. - Olhei Paul enquanto falava com Rory e ele sorriu pra mim. Eu baguncei o cabelo de Rory e levei Paul até o jardim, do lado de fora da casa. Tipo uma parte externa. Encostei-o no muro, prendendo seu corpo no meu com minhas mãos nos pulsos dele. Olhei-o e pedi licensa. Ele levantou a sombrancelha como se quisesse me seduzir um pouco mais. Larguei os pulsos de Paul, subindo minhas mãos em seu rosto. Era tão liso. Tão macio. Tão branco. Eu pude ver quando Paul fechou os olhos. Eu apoiei minhas mãos na nuca de Paul e toquei seus lábios com os meus. Ainda estavam quentes. Paul sorria. Acho que ele pensou que eu fosse atirado demais ou algo assim. Mas pude sentir o cheiro dele outra vez. Era doce pra variar. Ainda bem que eu não era diabético. Mas acho que ele havia mudado o perfume. Ou que não reparei que a camomila de Paul era tão doce quanto calma. Senti suas mãos abraçarem minha cintura enquanto eu o beijava. Quanto mais eu beijava, mais queria beijar... Ter aqueles lábios somente pra mim. O corpo de Paul somente pra mim. As mãos. O rosto branco. A camomila. Os olhos verdes. Nunca havia contado pra ninguém, mas na primeira vez em que eu sonhei com George, seus olhos eram verdes. Paul só me fez amar mais e mais seus olhos verdes. Rory começava a tocar de lá de dentro. Eu pude ouvi-lo me chamar. Eu pedi pra Paul esperar. Fui pra sala e fiz um gesto com as mãos pra Rory. Voltei pro jardim e Paul estava sentado na grama. Eu fui até ele na ponta dos pés, olhando os lados. Ele ria muito. Quando eu sentei ele olhou-me.
-Elementar, meu caro Rich.
-Me beije, meu caro Paul.
Eu pude sentir as mãos de Paul sobre minha perna. Pouco a pouco foi 'se deitando' sobre mim. Elevando o corpo somente. Eu sorri, levando meu corpo pra frente. Oh, mas que lábios, meu Deus! Eu passaria anos descrevendo cada célula dos lábios de Paul.
Paul avistou uma árvore. Era uma macieira. E atráz da macieira... Escuridão. Paul levantou-se me puxando pela mão esquerda. Fomos pro escuro perto da sombra da macieira. Tudo que eu senti foram minhas costas encostarem na parede. Ligeiramente Paul entrelaçou suas pernas nas minhas. Fincou os dedos em minha coxa, fazendo-a subir. A camomila impregnou em minha roupa. Eu aproximei o rosto de Paul, puxando-o pela nuca e o beijei. Rory foi bem maldoso ao dizer que iria tocar a próxima música para o casal que estava no jardim. Eu lembro bem que música era. Tinha sons daquelas caixas militares. Era Frankie Avalon. John deu um assovio. Paul pulou o muro baixo do jardim da casa de Alvin. Eu fiz o mesmo. Fomos correndo pra casa de Paul. Paul abriu a porta meio estabanado, rindo muito.
-Vamos entrar na minha, de fato, humilde casa... - Ele sorriu e entrou. - Meu pai deve estar na cozinha agora. Vamos subir de mansinho na ponta dos pés, certo, meu caro Rich?
-Elementar, meu caro Paul. - Eu disse alisando o queixo e fazendo cara de espião. Subimos na ponta dos pés, segurando o riso. Quando Paul entrou em seu quarto os risos acabaram. Eu entrei e ele fechou a porta, me empurrando nela. Derepente ele ficou sério. Subiu minha camisa e a jogou no chão, com pressa. Eu senti seus lábios quentes, em meu pescoço e em todas as partes do meu corpo que a camisa escondia. Eu era abusado. Fui timidamente abrindo os botões da camisa de Paul, larguei-a no chão ao lado da minha.
Paul me puxou pra sua cama com os dedos nos passadores da minha calça. Quando estavamos ali eu realmente tive certeza que George não era meu. Eu não era de George. Por que pra mim o que importava, o que sempre importou é que você ama quando faz amor. Paul era magro e tocava meus ossos tão sutilmente. Eu pude ouvir cada palavra sem sentido que Paul disse em meu ouvido. Até quando me arranhava era diferente. Era tudo diferente com Paul. Cada dia é diferente. Cada noite é diferente. Cada gemido é diferente com Paul. Quando nossa euforia 'passou', Paul queria me mostrar algo.
-É só a letra. Não ficou muito boa. Mas... - Me deu um pedaço de papel meio amarrotado. Eu comecei a ler em voz alta, pra ver qual efeito causava.
-I've just seen a face,
I can't forget the time or place
Where we just meet.
Acho que Paul não queria que eu lesse o resto. Pelo menos não em voz alta. Eu passei a ler baixo. Tudo que li me fez sorrir. Exceto pelos 'she's' e 'Her'. Mas se não fosse assim não poderíamos grava-la quando estivesse pronta. Frescura de empresário.
Deitei sobre as pernas de Paul e guardei o papel amarrotado na gaveta em que ele estava. Senti os lábios de Paul em minhas costas. Ele me deitou em sua cama e me cobriu com seu corpo. Eu nos cobri com um lençol. E fizemos amor até de manhã. Dormimos a tarde toda.
(Por que é dificil ser o presente?)

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While my guitar gently weeps (18)

Fui tomar banho e eu ficava perdido nos meus pensamentos e me perguntava 'Por que tudo que eu fiz com George não foi com Paul?', depois eu parava pra pensar que tudo que eu fiz com George poderia ser melhor agora com Paul. Decidi acabar com as coisas na tal festa que Rory ia tocar. Ele tava ficando bem popular por aí. Na semana seguinte ele iria tocar no Cavern. E eu estava tão orgulhoso dele. Abri o vitrô do banheiro pra olhar a rua enquanto a água caía em meu corpo, me aquecendo um pouco. Lavei meu cabelo e me ensaboei. George deixava sempre sua marca em meu corpo, como os arranhões. Eles eram tão constantes que eu nem mais ligava pra eles. Enxaguei meu cabelo e meu corpo. Fechei o vitrô e desliguei o chuveiro.
Saí e me sequei. Coloquei a calça do meu pijama e deitei. Liguei a T.V e peguei a garrafa de vinho que estava embaixo da minha cama. Depois de um longo tempo, reparei que minha mãe havia trocado o porta-retratos com a foto do meu pai. Ignorei e fui ver o filme que estava passando na T.V.
Era um suspense do Hitchcok. Eu gostava, mas preferia Fellini. Mudei o canal e fiquei vendo uns desenhos antes de pegar no sono. Adormeci com um personagem batendo no outro.
De manhã, quando eu acordei George estava sentado na poltrona que havia na frente da minha cama. Ele parecia mais bonito. Mais alegre.
-Rich... Bom dia! - Me deu um sorriso largo e eu sentei em minha cama sorrindo.
-Bom dia, George! O que faz aqui tão cedo? Me parece feliz...
George sentou-se bem perto de mim. De certo não escutou Paul dizer que me amava no telefone.
-Estou feliz com uma decisão que tomei ontém e acho que não consigo parar de pensar nisso e eu nem dormi direito... - George me pareceu meio ancioso.
-Fala...
-Quer casar comigo?
Meu mundo caiu. E o de George também ia cair em breve. Eu, pra ser bem sincero, não entendi o que ele quis dizer com 'casar'.
-Que?
-Casar...
-George, era sobre isso que eu queria falar com você na festa.
-Que?
-É que assim, a um tempo eu venho me sentido apegado com Paul.
-Que? Então é assim? Com o Paul?
-Seria melhor eu ter feito tudo pelas costas então?
-Seria melhor você não ter começado com isso... E eu achando que íamos ficar todo mundo na boa com todo mundo. Porque afinal, eu dormi com Paul uma vez, você não ficou mal porcausa de mim, certo? Foi porcausa de Paul?
-Não! Foi sim por causa dele. É que ele tem um vazio como eu...
-Eu sou tão inútil que não consigo preencher seu vazio?
-Você não é inútil, George. É que você não tem esse vazio que agente tem... - Fui interrompido por George.
-Você acha que eu não sinto vazio nenhum? Você acha que eu sou O completo, O inteiro?
-E não é?
-Por que eu seria? Se eu tenho pai, mas ele fica metade do tempo fora de casa... Se ao inves de querer ficar comigo e com minha mãe um pouco ele quer ficar no trabalho com seu monte de papeis inúteis e sua secretária feia e mal-arrumada?
Fiquei num silêncio que a tempos não ficava. George prosseguiu.
-Por que eu seria completo, se o Deus em quem eu acreditava, ontem me disse num sonho que não existe... Mas sim que as pessoas acreditam nisso pra poderem ser completas? As pessoas querem ser completas de algum jeito... E a única coisa que fazia eu ficar completo era Deus e você. Eu achava que por Deus ter me dito algo naquela alucinação que me deu ontem de madrugada, que você não iria dizer algo tão parecido. Ou aquilo, talvez tenha sido um aviso. Acho que vou ser esotérico de agora em diante, por que pelo menos eu vou ter no que acreditar. Talvez Buda. Eu nem sei quem é Buda. Quem é Buda?
-Só posso dizer que segundo os livros de história Buda realmente existiu.
-Isso me deixa contente ao menos. Vou estudar. Não vou a festa ver Rory tocar, não. Vou ficar em casa e vou procurar algum livro sobre Buda.
-Ainda é meu amigo?
-Você vai me ensinar sobre Buda?
-Você quer?
-Você é inteligente, não?
-Acho que não, sei lá. - George largou o sorriso do rosto.
-Eu queria te completar... Mas acho que não sou tão inteligente pra isso. Você é inteligente, por que afinal Paul é um grande cara. Quero que me perdoe se fiz algo errado. Eu só errei tentando acertar...
-É o que todos nós fazemos.
George me abraçou, pela última vez tentando me completar. Eu o abracei também numa tentativa falha de tentar completa-lo.
-Agente se vê?
-Amanhã?
-Hoje?
-Vai na festa então?
-Se você, Paul e John forem...
-Eu vou sim.
-Até mais tarde, Rich!
George saiu acenando pra mim todo atrapalhado e tropeçou na dobra do tapete. Rindo muito, eu fui até a porta e fechei. Liguei pra casa de John e Cynthia atendeu. Meia triste, ela disse que John estava na casa da tia. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse que depois queria um conselho meu. Desligamos e eu liguei pra casa de Tia Mimi. Mimi atendeu meia brava. Pedi pra passar pro John se não tivesse problema.
-Alô. -John disse meio cansado.
-Johnny? Que houve?
-É que... Parece que a Cyn passou a noite de ontem com a Jane no sofá. Eu to puto com ela. Puto com a Jane. Puto com o Paul que não controla a namorada dele.
-John... Eu amo Paul!
-QUÊ?
Pensei no por que de eu ter falado aquilo pro John aquela hora...
-Liguei pra te perguntar se você vai na tal festa hoje...
-Vou... Eu acho. Não to com muita vontade não, não vou te enganar.
-É que eu andei pensando... George quer saber coisas sobre Buda. E como você...
-Tá pedindo pra eu ensinar coisas sobre Buda ao George? Ele vai me ouvir?
-Antigamente ele era mais teimoso, não era?
-Você não era namorado dele?
-Perdi, right...
John riu meio sem graça do outro lado da linha. Mas depois achou que estudar coisas seria uma forma de esquecer Cynthia.
-Depois eu falo com George então... Mas você e Paul também sabem sobre Buda, Shiva e todos esses caras aí...
-Eu entendo sobre Shiva e não sobre Buda.
-Já é alguma coisa, não?
-Sim... John, tenho que tomar banho. Depois agente vai ao tal do show do Rory.
-Right, Rich.
-Trocadilho legal.
-Thanks.
Desligamos e eu fui tomar banho. Nunca me vi tão bem arrumado. A última vez foi num dos meus aniversários de criança. Saí de casa e o cheiro de carmim se espalhou pela sala. Ouvi minha mãe espirrar no sofá. Tampei o nariz dela e ela riu. Beijei sua testa e saí fechando a porta delicadamente, como a tempos não fazia. Minha mãe deve até ter estranhado. Antes de fechar a porta por completo, ouvi um 'eu te amo' dela. Sorri e saí de vez.
Tinha uns malucos na rua. Eles acenaram e eu também. Coloquei minhas mãos no bolso. E soprei o ar gelado que estava em meus pulmões. Do nada começou a nevar de leve e eu andei um pouco mais rápido. Bati na porta da casa de Paul. Meio constragido, meio ancioso. Paul abriu feliz e sorriu. Ele vestia um paletó meio surrado, mas ainda sim não conseguia perder a classe. Sua calça social era também meia velha. Mas o que eu reparei foi o brilho nos olhos de Paul. Eu o abracei forte. Me senti completo como nunca havia me sentido. Paul disse bem baixinho, perto da minha orelha.
-Você me completa. - Mordeu o lóbulo da minha orelha e eu senti um arrepio do cóx até o último fio de cabelo. Eu o olhei meio trêmulo.
-Leu minha mente?
-Sou vidente, esqueceu? - Disse sorrindo e desceu o degrau que tinha na frente da porta de sua casa. Segurei sua mão e saímos pela rua até a casa de George. Avistamos John batendo na porta. Quando chegamos ele nos viu e tossiu. Ficou meio sem graça e suas boxexas coraram.
-Veio ensinar história pro George, John? - Paul disse e tocou meu ombro com os lábios tentando segurar o riso. Eu virei meu rosto pra traz, com o queixo encostado no colo de Paul, tentando segurar minha risada também. John ficou meio irritado com a piada de Paul e bateu com mais força na porta da casa de George. George abriu e sorriu pra John. Acenou pra Paul e pra mim. Fechou a porta e fomos. George aprendeu a ser abusado comigo. Acho que minha fama não era das melhores. George tinha ficado um pouco menos tímido conforme o tempo, mas John, John era O abusado. Enquanto andavamos ele segurou a cintura de George e Paul era bom em guardar a risada pra depois poder rir sozinho.
Na hora me veio a cena de Paul rindo sozinho em seu quarto. Eu ri. John olhou-me.
-Diga...
-Pensei numa cena aqui... Paul rindo sozinho em seu quarto. - Olhei Paul. -Devo parabeniza-lo.
-Por que?
-Depois eu te digo... - Pisquei pra Paul e ele sorriu curioso.

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While my guitar gently weeps (17)

Como John cortou o ensaio aquele dia Paul, Rory e eu fomos andar. Eric, o amigo de John estava caminhando com Pattie e eles pareciam um tanto íntimos demais pro meu gosto. Mas enfim... Rory começou a cantar umas músicas de Johnny River no volume máximo de sua voz pras beatas chamarem a polícia. Ele gostava de correr sabe... Então ele começou devagar.
-Together we can make, baby... On the poor side of town... Tchururuáaaaah - Paul colocou a mão na cabeça e eu comecei a ficar vermelho de tanta vergonha. Depois ele mudou o repertório. -Cherish is the world... -Mudou e cantou várias coisas. Rory não correu naquela noite. Desapontado foi pra casa e disse que no outro dia teria uma festa pra tocar, nos convidou... E os outros também. Acenou pra Paul e pra mim e foi pra casa.
Paul continuou a 'Cherish' da parte que Rory havia parado...
-And i do, cherish you... - Paul cantou andando de costas e ouvimos o barulho da cirene da polícia. -Corre comigo Rich! -Disse Paul correndo. Eu segui cantando enquanto corria.
-Dream dream dream dreaaaaaaaaam... -Chegamos na porta da minha casa. Paramos pra respirar e rimos. Abri a porta e entramos. Paul ligou pra casa pra avisar o pai que ele dormiria na casa de um amigo e o pai concordou. Ele olhou pra mim e disse que gostava de cantar também. Me sentei ao lado de Paul no sofá. As cortinas estavam fechadas.
-Tenho que ir... A mãe do George deve estar me esperando... - Disse Paul levantando do sofá e eu tentei mante-lo ao meu lado.
-E não pode ficar aqui?
-Meu pai poderia ligar na casa do George?
-Agente poderia ligar antes?
-Você estaria encrencado, mocinho?
-Será?
-Você não sabe?
-Você não lê o futuro?
-Seria melhor?
-Não sei, mas... Acho que não viu?
-Eu também acho que não... viu?
-Você acha que os videntes gostam de ver o futuro?
-Depende... que vidente?
-Você não sabe?
-Os trambiqueiros? - Quando Paul perguntou isso, valeria a pena perder o jogo das perguntas com uma boa risada, mas...
-Você vai na festa do Rory amanhã?
-Eu vou se você for... Você vai?
-Vou, mas... Será que vão servir pipocas e coca-cola?
-Balas?
-Caramba, com quem andou treinando isso?
-Como é o nome do guru das perguntas bizarras?
-George?
-BINGO!
-Bingo rima como ringo?
-Eu perdi?
-Não... - Consegui finalmente rir muito. Paul e eu riamos feito dois bobões. Ele realmente teria que ir na casa de George. - Diga ao George que eu quero falar com ele amanhã na tal festa...
-Ok... - Paul saiu meio desanimado. Fomos até a porta e eu a abri pra Paul.
-Não tá tarde pra você sair por aí a essa hora?
-Não, não... Relaxa, eu vou andando rápido, espero que a viatura tenha ido embora.. - Paul disse rindo pra mim, o sorriso doce que era como uma característica dele, a que eu mais gostava, mas que as vezes não tinha devido a morte da mãe.
-É mesmo, toma cuidado aí na rua e se precisar grita que o super Richard vai até você.
-Tá bem... - Ele tinha olhos verdes e eu nunca tinha parado pra ver isso. Oh, céus! Como não pude reparar. Os olhos foram a segunda coisa que eu reparei depois do sorriso. Eu aproximei meu corpo do corpo de Paul e segurei sua mão direita. A mão dele estava um tanto fria e tremia também. Encostei meus lábios quentes nos lábios dele que estranhamente também estavam quentes. O ar que saía da boca de Paul era quente e o meu sempre frio. Meus lábios tremiam tanto quanto a mão de Paul. Ele sorriu pra mim, entrelaçou nossos dedos e me olhando ele sorriu, afastando nossas mãos. Eu levantei minha mão e ele a dele enquanto ele ia e seu corpo se afastava de mim. Eu fiz o bico que criança faz quando tá triste e ele riu denovo. O corpo de Paul sumiu no meio da rua e eu fechei a porta. Sentei no sofá e liguei a T.V. O telefone tocou e eu atendi. Era Paul.
-Cheguei vivo na rua de traz. - Eu pude ouvir a risada dele. A risada mais linda de todas as outras... A de George era bonita, mas a de Paul além de tudo era uma risada muito amiga.
As vezes as pessoas não sabem reconhecer uma risada amiga, mas eu sei. Não que a de george não fosse. Mas a de Paul era doce.
-Não precisou do super hiper Richard?
-Eu sempre preciso dele... - Paul disse aquilo e eu comecei a chorar do nada. Eu mal entendi por que estava chorando, mas eu consegui disfarçar. Pelo menos era o que eu achava. -Quer falar com o George?
-Põe ele aí... - Paul passou o telefone pra George.
-Super Hiper Richard! Tudo bem?
-To bem sim... E você?
-To bem... Mas tenho que falar uma coisa com você amanhã também...
-Fiquei curioso George... Por que faz essas coisas?
-Por que pergunta se sabe que não vai dar pra falar agora?
-Por que?
-Por que sim oras... Ganhou. - Eu ri e olhei a T.V.
-Eu sei que gosta de Rory Stormy and the Hurricanes... Eles tão na T.V agora... Canal 45.
-Valeu... Ah meu Deus...
George parecia uma fã alucinada de Rory Stormy and the Hurricanes. Não sei como ele não acabou careca.
-George, passa pro Paul... Rapidinho, se não for encomodo.
-Imagina... - George passou o telefone pra Paul e eu pude ouvir George cantar uma das músicas do Rory.
-Paul?
-Aqui... Já vai dormir?
-Não ainda não...
-Já já eu to indo dormir...
-Tem certeza que quer dormir?
-Como?
-É que assim... Você tá mesmo com sono?
-Não to não, vou mentir não... Mas já tá tarde e a mãe tá aqui confirmando isso. - Eu pude ouvir a mãe de George dizendo algo do tipo 'Manda um beijo pra Rich'. -Tá te mandando um beijo Rich.
-Manda outro e diz que o genro tá com saudade.
-Ela ouviu... Já vou desligar... Mas você vem buscar agente amanhã?
-Vou! - Paul já ia desligar e eu pode ouvir um...
-Eu te amo! - Eu fiquei gelado, tremendo e gaguejei
-E.. e... eu te amo muito! - Ele riu e desligamos.
Fiquei pensando se George teria ouvido isso do outro lado, por que além de tudo Paul falou baixo. Então eu tentei esquecer isso e fui dormir. Minha casa era na rua da frente da casa de George, as vizinhas de George nunca me agradaram. Acho que nunca foi a intenção delas. Elas nunca gostaram de mim também. Acho que a última coisa que eu ia querer era elas como amiguinhas. Beatas. Loucas. Psicoticas. Bitoladas em Jesus Cristo. Eu sempre ficava me perguntando 'Como elas conseguem, Cristo?' Mas minhas dúvidas sempre acabavam quando eu via os filhos delas. Eles eram piores que John e eu. Eu e John pelo menos íamos a escola. Até que minhas notas não estavam tão ruins. Eu fazia de tudo pra cair fora daquele lugar e passar o dia ouvindo Sam Cooke e bebendo um vinho. Qualquer tipo de vinho me deixava bebado. Era cada um com uma coisa diferente. John era o cara da vodka. George era o cara do vinho seco. Paul era o cara do uísque. Rory era o cara do rum. E eu era o cara de todas essas aí. Minha mãe uma vez me levou num psiquiatra pra ver qual era meu problema e o cara disse somente que eu era louco. Creio que ele precisaria de uma avaliação mais detalhada pra afirmar isso, não?
Eu desliguei a T.V e subi pro meu quarto. Me deu uma saudade da época em que eu subia a árvore da casa de George. Mas toda vez que eu pensava em alguém, não era em George, mas sim em Paul e ficava pensando se tudo aquilo que eu já fiz por George eu poderia ter feito com Paul à partir do momento em que Paul se apresentou todo serelepe pra mim.

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While my guitar gently weeps (16)

Fim - Flashback 2. (Rich)

George me olhava com cara de quem tinha visto fantasma, Lennon estava feliz em saber que agente não ia cabular o trabalho.
-Apareceu a margarida!!! - Lennon veio em minha direção e bagunçou meu cabelo.
-Bonito seus óculos... Stevie Wonder.. - Eu disse tentando me livrar dos braços de John.
-Mimi comprou pra mim. - Ele disse me soltando e sentando no palco.
-Mimi comprou pra você? Nossa, mas o que deu nela? Isso não é um Ray-ban, é?
-Concerteza.. Ele tem protetor solar. - John tirou os óculos e piscou os olhos feito uma lady.
-Não me seduza... - Disse eu sentando em uma cadeira, Paul veio até mim e sentou-se ao meu lado enquanto George olhava Paul.
-Rich.
-George... Ok ok, quer saber o que houve?
-Adivinhão...
Eu me levantei da cadeira, baguncei o cabelo de Paul.
-Por favor... - Apontei a porta. George e eu saímos.
Lá fora tinha uma criança andando de bicicleta com seu pai. Só.
-Ok, o que quer saber?
-Primeiramente... O que há com Paul, depois com você...
-Paul havia sonhado ontem e disse que John traiu sua confiança.. Sabe, bebados dizem isso...
-E você?
-Eu sinto que você precisa fazer amor comigo e não que sinta amor por mim.
-Qual é a diferença?
-Você não sabe?
-Não vai me dizer?
-Você não sabe que a diferença entre fazer amor e amar, é que quando você faz amor não necessariamente você ama o outro e que quando você ama você ama e acabou?
-Você pensa que eu não te amo?
-Você não lê minha mente?
George se calou e entrou. Mais uma vez eu ganhei no jogo de perguntas... Modéstia de lado eu era bom nisso.
Eu entrei no pub. John e Paul tocavam Elvis. Eu fui entrando e sentando enquanto dançava.
-That's alright mama, that's alright you. - Paul tinha uma bela presença de palco. John tinha também, mas era muito engraçado e abobado. As duas qualidades dele que mais chamavam atenção eram essas duas. Mas John era muito turrão se é que me entende...
Rory estava sentado na mesa e olhando pra mim apontou a bateria vazia. Eu subi no palco e toquei com os dois, que esperavam George. George sempre foi o cara que acreditava em Deus, mas naquela época acho que ele tinha desistido de acreditar no todo poderoso.
Então ele subiu todo lindo e moreno, achando que tava em Paris e que fosse uma daquelas modelos magrelas da Factory. Andy que me perdoe, mas Eddie nunca esteve com nada. Ou eu que nunca soube dar o valor que ela merecia sei lá... Mas a Nico...
Derepente Paul começou a tocar uma outra música. E não era rock. John ficou puto e disse que outro dia agente ensaiava. Saiu do palco e foi pra casa de sua tia. Paul desplugou o baixo do amplificador e chamou o garçom, sentando no palco e batendo os pés.
Ele era a criatura mais doce e legal e linda e compreensiva que eu havia conhecido durante aqueles dias...
Acho que ele mais ou menos me entendia, porque sentia um vazio também... John sentia dois 'vazios'.
Eu saí do kit bateria e sentei-me ao lado de Paul.
-Me traz um uísque duplo amigo? - Disse Paul piscando pro garçom com os dois olhos.
-Me traz um uísque duplo amigo? - Disse eu piscando pro garçom. - E depois me traga uns chiclets também. Ou melhor... Traga tudo junto. - Olhei George e ele riu. Rory apontou a porta olhando pra mim com cara de dúvida. Ele levantou-se da cadeira.
Eu fui atraz dele.
-Tá certo... Que tá acontecendo aqui? Por que ninguém mais me atualiza das coisas que acontecem aqui meu Deus?
-Dormi com Paul na minha casa...
-QUÊ? - Rory me olhou com o semblante das beatas de Liverpool, quando elas me viam segurar uma garrafa de vinho em pleno natal elas ficavam literalmente pálidas.
-Foi... Não é o que você tá pensando... Agente não fez sexo... Ainda...
Paul gritou pra mim de lá de dentro, segurando meu uísque.
-Mas Rich... - Eu saí em direção a Paul pra pegar meu uísque. -Rich volta aqui! Vai me deixar falando com as moscas, meu Deus? - Rory veio atraz de mim e quando eu peguei o uísque Rory me puxou pelo braço, George e Paul fecharam a cara... George foi embora, mas Paul ficou...
-Rory, George só quer transar comigo... Entendeu? - Eu disse baixinho pra George não ouvir enquanto eu saía.
-E por isso você vai dormir com Paul?
-Não é por isso! - Olhei Paul olhando pra mim e pra Rory. -É que ele é tão lindo, olha pra ele cara... Peraí não olha não! - Eu disse derrubando um pouco do uísque no chão. -Fica sentadinho aí, enquanto eu olho ele. - Deixei Rory falando com as moscas e fui em direção a Paul.

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While my guitar gently weeps (15)

Flashback . [You are my sunshine - 1] (Rich)

Paul havia me contado sobre o sonho que acabara de ter. Ele estava bebado a um bom tempo. Demorei a entender o que disse, mas consegui entender a parte de que o John teria que ir atraz da Cynthia pra pedir desculpas, agora por que John o traiu eu não entendi lé com cré e balancei a cabeça afirmamente, por que aprendi com o tempo que se deve deixar pessoas embreagadas falarem.
Ele encostou as mãos em meu ombro e eu tinha que ser bem sincero, afinal sempre me exigiram fidelidade e perfeição. Pois bem, eu deveria ser sincero. O perfume dele não era de alcool, nem parecia que ele havia bebido. Só estava um tanto quanto abatido. Me olhou no fundo dos olhos e eles estavam molhados. Caiu uma lágrima de seu olho esquerdo e George chegou.
Fim - Flashback 1 . (George)

Olhei Rich conversando com Paul. Paul olhava estranho pra mim. Não entendi bem o que estava acontecendo. Embora eu quisesse saber o que estava acontecendo... Minha dor de estomago falou mais alto. Meus irmãos provavelmente estariam em casa me esperando. Olhei Rich e Paul de cima a baixo.
-To morrendo de dor de estomago, vou pra casa, mas ainda quero saber o que aconteceu. Rich amanhã você me conta e ponto.
Olhei o Paul meio preocupado, meio indiferente.
-Café amargo cura ressaca. -Eu disse. Paul levantou o polegar. Me aproximei de Rich e o beijei secamente. Logo em seguida saí.
Quando entrei em meu quarto olhei os dois da janela. Paul sentou-se no degrau da escada de sua casa. Pos as mãos na cabeça. Rich o olhava preocupado, sentou-se ao lado de Paul e eu fechei a cortina com tanta raiva que esta caiu. Naquela noite dormi vendo a lua, as vezes olhava pra ver o que estavam fazendo lá em baixo. Até a hora que eu os olhei, Paul estava desabafando com Rich. Me deu uma pontada no estomago e deitei-me de bruços. Coloquei o travesseiro em cima da cabeça e tentei esquecer.
No dia seguinte levantei com tudo e olhei a janela. Nem um nem outro estavam mais lá. Peguei o telefone e telefonei pra Pattie... Pedi que viesse depois do almoço. Ela disse que viria. Desligamos e fiquei olhando a janela. Não havia sol aquele dia, John havia me ligado dizendo que teria ensaio a tarde e poderiamos tocar no Cavern Club. Estava tão empolgado que esqueci de tudo. Até mesmo de Rich. Minha mãe bateu na porta e disse que Pattie estava na sala. Quando cheguei lá, ela me olhou e deu um sorriso.
De tarde eu fui até o cavern. John estava encostado na frente do pub. Ele me pareceu mais rejuvenescido... Acho que ele foi atraz da Cyn literalmente. Jon parecia Ray Charles com seus óculos escuros e seu jeito de olhar as nuvens... Ray Charles não, Steve Wonder, perdão.
John me estendeu a mão e fez uma gracinha, me olhou rindo e perguntou de Rich.
-Não sei onde ele está, talvez ele esteja por aí com o Paul... -Pus minhas mãos no bolso e entrei.

Flashback . [You are my sunshine - 2] (Rich)

Paul não havia bebido tanto. O problema é que ele estava abatido, ele não dormia a dois dias seguidos e o pior que nem era por causa de John. Nem ao menos de George, Jane ou sei lá quem mais... Ele me disse que queria ter sido atropelado no dia do aniversário de Jesus Cristo e ter visto olhos azuis pela janela antes de George, mas como chegou depois de George ter sido atropelado... Eu o olhei com a cabeça entre as mãos. Me aproximei um pouco, meio tímido. Encostei minha cabeça no ombro de Paul.
-Minha energia é tão boa assim?
Paul tirou as mãos da cabeça, me olhou meio estranho e timidamente colocou a mão na minha que estava sobre minha perna. Ele riu sem graça, retirou sua mão de cima da minha e pediu desculpas. Logo ele que nunca pedia desculpas pra ninguém. Eu levantei minha cabeça e olhei Paul. Disse que só o desculparia se jantasse pipocas comigo e ele sorriu, concordando com a cabeça.
Levantamos e fomos pra minha casa, jantar pipocas a meia noite. Abri a porta lentamente pra não fazer barulho e chamei Paul com o dedo. Ele veio até mim na ponta dos pés, olhando os lados como se estivesse em um filme de espionagem. Eu ri. Ele entrou finalmente e quando eu ascendi a luz, ele se jogou no sofá. Eu ri denovo. Minha mãe não acordou, graças a seu remédio pra dor de cabeça que no caso também dava sono. Eu o tomava as vezes quando lembrava que eu não tinha pai. Eu olhei Paul e fui andando até a cozinha na ponta dos pés. Paul veio junto na ponta dos pés também. Nós riamos muito.
Quando chegamos na cozinha, Paul sentou-se em uma cadeira e eu peguei o milho. Eu olhei ele me olhando enquanto eu pegava o óleo. Ele me olhou olhando-o enquanto ele pegava uma panela pra mim. Então peguei a panela das mãos de Paul e ascendi o fogo, coloquei a panela lá e óleo dentro. Quando eu fui colocar o milho, alguns grãos caíram no chão, ele sorriu. Coloquei os grãos de milho e fechei com uma tampa.
Enquanto esperavamos a pipoca ficar pronta, fomos até a sala. Paul ficou em pé na frente do piano e eu sentei no sofá. Ele olhava as fotos uma a uma, enquanto eu o olhava. Ele pegou um retrato e virou pra baixo, tentando ser discreto. Eu levantei e fui até ele, virei pra ver qual foto era. Era uma foto minha e de George. Ele virou o rosto meio tímido. Eu tirei a foto do porta retrato, rasguei e joguei no lixo, Paul se virou assustado.
-Mas... mas.. O que... Porque?
- Por que George pensa ser o mesmo de algum tempo atraz. - Joguei o porta retrato também e voltei ao sofá.
-Rich.. - Disse Paul sentando ao meu lado, eu o olhei. -E Maureen?
-Maureen... Até que ela é legal, mas sabe... eu não consigo... Se é que me entende... -Eu disse olhando os lados e Paul seguiu rindo.
Comemos a pipoca, escovamos os dentes e fomos dormir.
-A questão é que você prefere dormir pra direita ou esquerda? -Eu perguntei a ele meio tímido.
-A questão é que eu prefiro dormir... -Ele riu e se jogou na cama. Eu peguei as cobertas e deitei também. -É bom que você não tenha problema em dormir assim, Rich! -Sorriu pra mim e virou-se. Depois voltou pra mim e me deu boa noite. Eu desejei o mesmo e virei-me.
-Rich...
-Sim..
-Eu te amo.
Quando ouvi aquilo me senti tão bem e tão sem culpa.
-Você é doce... -Ao contrário do que sempre me falaram sobre Paul. Ele era doce porque sabia ser doce, ele é doce porque nunca desaprendeu a ser doce. Era doce, é doce e sempre vai ser doce. Ele sorriu pra mim e se aconchegou em meus braços caindo em seu próprio sono.
Quando acordei ele ainda estava lá, só que havia acordado e me olhava tão contente. Aquilo me contagiou e eu fiquei alegre também.
Eu simplesmente não resisti e o beijei. Eu pude sentir toda alegria, toda energia minha que eu podia passar a ele. Eu senti suas mãos, o cheiro do seu cabelo, o toque com a ponta dos dedos... Eu me sentia tão feliz. Me sinto tão feliz. E vou me sentir feliz com ele até o dia em que eu morrer.

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While my guitar gently weeps (14)

Nos dias que se seguiram depois, a banda estava fazendo um moderado sucesso. As garotas nos amavam. Todos os dias tinhamos montes de cartas e ursos de pelúcia em nossas camas nos quartos dos hotéis. Antigamente não tinhamos nada em Hamburgo. Aqueles hotéis da Europa e Ásia eram luxosos demais pra nós quatro. Nos sentiamos sozinhos no quarto grande. Então eu ia pro quarto de Rich, depois os meninos me seguiam e faziamos jogos imbecis e perguntas imbecis. Paul já estava de boa comigo e com Rich. Ele enfim descobriu que gostava mesmo de Jane e cá entre nós ele estava certíssimo. John tinha engravidado uma garota. Mas ninguém podia saber, senão as fãs iam deixar a euforia de nos ver nos shows. Assim como eu e Rich. Naquela noite foi tudo diferente. Eu era o mais novo dali. Eu não sabia de metade das coisas daqueles caras. John perdera a mãe. Ela foi atropelada. Paul eu sabia. Também tinha perdido sua mãe. Rich era o que chamavamos de filho de pais separados.
-Eu não sou pequeno. É que vocês são muito grandes. -Rich disse olhando pra Paul. E rimos muito até as duas da manhã. Eu gostaria de descrever tudo o que houve aquela noite. Mas houve maconha, então eu não vou lembrar de tudo.
No dia seguinte o empresário veio com Pattie e uma amiga dela. Maurreen. Era bonita, morena de silios grandes. Eu a conhecia de festas com a Pattie. Era modelo.
-Ringo, essa é Maureen. Maureen esse é Ringo. -Disse o empresário a Ringo e a Maureen. Rich olhou Maureen, lhe estendeu a mão e disse algo carregado de humor e recepção.
-Toda vez que vem pra cá... Você compra quantas bolsas? -Rich disse olhando as malas de Maureen.
-4 ou 5. -Disse Maureen meia rouca.
Eu olhei a criatura que trouxe Pattie e Maureen, de cima a baixo, olhando aquela roupa dele, aquele cabelo mal penteado, a barba mal feita. Olhei Maureen e olhei Pattie. Balancei a cabeça em um sinal negativo e entrei na casa de John. Pattie veio atraz. Rich chamou meu nome. Eu olhei pra ele, levantei a mão e continuei andando. A casa de John era nova. Ele morava lá com Cynthia. A garota que ele tinha engravidado. A parede era azul celeste. Havia desenhos feitos por John. John desenhava bem apesar de nunca gostar de mostrar os desenhos. Nem Rich havia visto. Quando entrei, Cynthia assistia televisão. Um programa de auditório, daqueles que a platéia é formada por garotas. Ela fez um gesto e eu sentei. Pattie sentou-se ao lado dela e as duas começaram a conversar. John saiu da cozinha segurando uma tigela com biscoitos. A tigela era chinesa... Deu pra ver pelos desenhos na borda. Cynthia desligou a T.V. Ela e Pattie foram para o quarto ver umas roupas. John sentou ao meu lado e colocou a tigela chinesa de biscoitos na minha cara. Deu um sorriso amarelo e viu que eu estava triste, então largou a tigela na mesa pequena e estreita que ficava no meio da sala e me olhou.
-George? -Disse cruzando as pernas.
-Sim?
-Por que está triste? Porcausa dela? -John apontou a janela.
-Eu não consigo esconder as coisas de você?
-Por que você é tão espiritualista?
-Sou?
-Por que não assume que é espiritualista e que eu posso ver que você está triste?
-Por que você esconde seus desenhos?
-Escondo?
-O que eles estão fazendo naquela parede?
-Você não sabe?
-Esqueceu que minha memória é fraca?
-Alzheimer?
-Por que acha?
-Tá bom George! Você venceu denovo. -John e eu costumavos a conversar usando somente perguntas. Era engraçado e sempre funcionava comigo. -O problema não é comigo... Não é com Ringo... Nem com Pattie e muito menos com Maureen... O Problema é com o homem...
-Como sabe?
-Esqueceu que sou adivinho? -john disse com um sorriso cinico.
-Você é?
-Tá perdi denovo. -Olhou pra baixo e eu ri.
-O problema é que eu não posso ser quem eu sou lá fora entende... E agora essa praga fica arrumando mais problemas pra todo mundo. Eu decidi que se ele não parar com essas asneiras eu saio da banda e ele que se foda.
-E agente?
-Vocês vem junto?
-Não seria muito encomodo?
-Por que diz isso?
-Por que... -John pensou um pouco. Eu levantei. Olhei John.
-Ganhei denovo! -Fui em direção a porta e trombei um cara. acho que era amigo ou colega do John. Me cumprimentou, disse que chama-se Eric e entrou. John me olhou.
-George! E a Pattie?
-Que Pattie? -Sai andando com mais uma vitória sobre o John.
Rich estava lá fora encostado num carro me esperando sair. Eu olhei pra ele e tampei os olhos porcausa da claridade. Fui andando até ele. Ele colocou as mãos no bolso da blusa. Eu me encolhi em meu casaco. Ele se aproximou. Eu não me movi. Ele me abraçou, no meio da rua.
-Esquece essa Pattie e casa comigo?
-Por que? -Eu disse empolgado com a brincadeira.
-Como assim por que? -Ele disse interrompendo o abraço.
-E aquela Maureen? -Eu disse com semblante de desprezo.
-Aquilo? Você acha que eu mereço aquilo?
-Eu te amo! -Perdi o jogo, mas valeu a pena.
Naquela noite não haveria ensaio. Paul estava na frente de sua casa. Ele havia bebido mais do que devia. E não falava coisa com coisa. John e eu, íamos a sua direção, quando ele levantou num ímpeto. E correu na direção de John colocando as mãos no pescoço dele. Paul apertava o pescoço de John e John ficou meio que sem ar. Eu segurei as mãos de Paul e as tirei do pescoço de John, antes que acontecesse algo. Rich vinha de bicicleta. Largou a bicicleta no quintal da casa de Paul e veio até nós.
-O que tá acontecendo aqui? -Disse Rich em um tom firme e responsável.
Paul foi na direção de Rich, apoiou-se no ombro dele. Começou a dizer coisas sentido e então falou com sentido.
-John me despresa. - Olhou John meio triste. Depois voltou-se para Rich empurrando ele pra longe de onde estavamos.
O que ouvimos depois foram cochichos e frases inlegíveis. John passou as mãos em volta do pescoço tentando fazer a dor parar. Eu olhei e tentei descobrir o que tinha acontecido. John nada disse, apenas colocou as mãos no bolso e deu de ombros. Me estendeu a mão gelada porcausa do frio, acenou e foi pra casa olhando pra traz.
Rich ainda estava com Paul. Eu fui na direção deles e os cochichos pararam.

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While my guitar gently weeps (13)

-Eu vou pegar um copo de água pra você. -Ia se levantando quando eu puxei o braço dele.
-Fica comigo! Não sai daqui. Por favor?
-Ok... -Ele agachou novamente segurando minhas mãos. Eu apertava as mãos de Rich com força, mas sem pressão. Era um toque delicado. Cheio de medo. Ele me olhou novamente.
-Você fica aqui essa noite. Amanhã agente vê o que faz certo?
-S... im... -Disse eu de cabeça baixa.
-Eu te aconselharia a tomar um banho. -Disse ele levantando meu rosto com a mão esquerda. Eu fiz que não com a cabeça. Ele sorriu. -Eu vou com você. -Disse ele sorrindo. Eu sorri de cabeça baixa. -Ai depois... Eu aluguei uns filmes... Agente faz pipoca... Toma alguma coisa... Vê Tv... O que você quiser... Hein? -Disse ele sorrindo. -Ah vá George. Fala alguma coisa. Você aceita?
-Sim. -Eu disse sorrindo pra ele. Ele sorriu devolta.
-Vem comigo. -Ele disse pegando minha mão e levantando. Ele segurou minha cintura me apoiando pra eu não cair no chão. Ele me levou até o banheiro. Me entregou uma roupa limpa minha que eu havia esquecido lá. Uma toalha laranja. Tirou a roupa e foi pra de traz do box. Ligou o chuveiro e me chamou. Eu tirei minha roupa e fui também. Ele pegou o sabonete e passou em minhas costas. Enquanto passava, pedia desculpas.
-Desculpar do que Rich? Eu não tenho que te desculpar não. Porque ta pedindo desculpas?
-Porque desde que nos separamos você tem sofrido demais, não é justo de minha parte, saber que você me ama e saber que eu te amo e nos privar disso sabe.
-Não é culpa sua. A culpa é do Brian. Ele fez tudo isso quando arrumou esse 'namoro' pra mim. Entende? Não é culpa sua Rich. -Eu disse sendo ensaboado.
-Ok. -Ele sorriu. Eu sentia as mãos quentes dele tremerem. As minhas pernas estavam bambas. Eu ouvi Rich dar um suspiro. Eu virei minha cabeça para o lado direito. Ele encostou a boca em meu ombro e beijou-o. Eu sentia tanta falta daqueles lábios quentes e tremulos. Arrepiei dos pés ao cabelo. Virei-me defronte a ele e o prendi contra a parede. Apoiando minhas mãos no azulejo frio do banheiro de Rich, beijei-o com toda raiva de não poder fazer isso em público, com toda raiva de não poder fazer isso antes, com toda raiva de Pattie, com raiva de Jon, de Paul e de Deus e o mundo. Beijei-o com afeto e carência. Beijei-o como nunca havia beijado antes. Ele me abraçou. Desligou o chuveiro e me cobriu com a toalha laranja.
-Vamos fazer alguma coisa. -Me olhou sorrindo. Eu abaixei a cabeça.
-Rich!
-Sim.
-Queria agradecer por deixar eu ficar aqui por hoje. -Eu disse chorando. Ele me abraçou forte.
-Eu te amo! Não agradeça. Você me entende? Eu te amo mais do que tudo no mundo. -Eu olhei pra ele.
-Também te amo.
Fomos pro quarto dele. Eu me joguei em sua cama e me cobri com um edredon. Eu sentia dor, mas já tinha parado de sangrar. Ele me olhou.
-O que você quer fazer?
-Que filmes você alugou mesmo?
-Fanfan la Tulipie -Fez uma espreção romântica. -The Quit Man -Um semblante triste. -Rancho Notorius -Um semblante de pistoleiro. -E Sailor Beware -Disse ele com um sorriso amarelo na face. Eu ria. -E ai qual você quer? -Colocando a mão no queixo.
-Fanfan la Tulipie. -Eu disse rindo. Ele colocou a fita no aparelho. Deitou na cama. Se cobriu e me abraçou. O filme começou. Era a história de Fanfan. Um garoto sensível que se alista no exercito de Luís XV. Nem prestei a atenção que o filme merecia. Eu sentia o cheiro de Rich empregnar minha pele, meu cabelo e todos os meus orgãos. Ele olhava a T.V, tentava assistir, mas conseguia somente ouvir sua própria respiração ofegante e anciosa, esperando eu dizer algo.
-Rich. -Eu disse sentando e encostando minhas costas no apoio da cama. Ele se virou pra mim de súbito esperando ouvir algo.
-Sim... -Meu Deus eu não resisitiria denovo... Não outra vez...
-Eu quero você! -Nunca senti tanta convecção ao dizer algo. Talvez fosse a saudade. Talvez a raiva... Mas a verdade é que eu queria ele, mesmo que fosse doer. Mesmo que não houvesse mais banda porcausa disso. Mesmo que a Pattie ficasse deprimida e se sentisse só... Mesmo que o mundo acabasse porcausa de nossos atos, eu queria Rich com todo meu direito de querer alguma coisa... Rich estava nu da cintura pra cima. A pele branca e macia ainda estava um pouco molhada devido a pressa de Rich ao sair do banho. No filme tocava uma música... Eu senti vontade de chorar, mas me detive ao sentir os lábios de Rich tocarem os meus. Dessa vez eu não resisti. Senti as mãos quentes de Rich alisando meu quadril. Cada dedo. Cada toque. Cada mordida. Ele foi me deitando em sua cama lentamente. Sorria um sorriso timido, o mesmo da primeira vez. Ele levantou-se devagar. Pegou o controle da TV e aumentou o volume, para que ninguém nos escutasse. A mãe de rich parecia estar na cozinha. Era umas 17:50. Eu não estava ligando pra hora de chegar em casa. Eu não dormiria em casa aquela noite.

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While my guitar gently weeps (12)

-Tem muita gente ai? -Perguntei a ele.
-Tem... Quer beber o que? -Ele disse pegando uma garrafa pra mim. Eu o olhei.
-Vou beber isso que você me deu mesmo. -Dei um sorriso amarelo e sentei na escada. Abri a garrafa e dei um gole grande. Paul chegou com maconha e cigarros. Eu peguei uma bagana e ascendi. Coloquei na boca e traguei quase tudo de uma vez. Estendi meu corpo sobre os degraus. Tocava uma música triste, mas que ao mesmo tempo me fazia querer dançar. Ela tinha algo mais que uma simples musica... Perguntei a Paul quem cantava e ele deu de ombros. Ele não sabia de quem era a música. Mas mesmo assim eu gostava dela... Era diferente do Skiffle. Era diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Então me levantei e fui até onde Paul estava. Conversamos sobre algumas coisas. E John chegou sozinho. Cumprimentou a todos com um aperto de mãos. E alguém nos ofereceu doces. Eu levantei minha sombracelha direita. Olhei pra quem entregava e disse que ia aceitar um. Depois de mim todos pegaram um doce. Rich chegou e cumprimentou todos com um oi. Me olhou e perguntou se eu estava bem. Eu respondi que sim. Eu perguntei também. Ele disse que ia ficar bem. Ele abraçou John. Eu via a mão dele na cintura de Jon. Eu queria apartar. Mas não podia. Eu não mandava na vida de Rich. Eles se retiraram da sala e foram andar pela casa de Paul. Eu segui os dois com os olhos. E eles ficaram embaixo da escada. Jon alisava o peito de Rich, era eu quem tinha que fazer aquilo. Aquele maldito cheiro de camim impregnava a roupa de Jon, mas eram minhas roupas que tinham que ter esse cheiro. Eu não sei porque mas eu não aguentava ver aquilo. Eu só queria ter certeza de que estavam mesmo transando em baixo da escada e estavam. Eu comecei a chorar de ódio. Peguei minha garrafa e fui pra casa. Eu andava pela rua de Paul e pra todo lugar que eu olhava eu via Rich. Eu devia estar bebado sei lá... Eu sei que eu via ele em cima da árvore... Eu o via encostado nos carros da rua, nas portas das casas, enfim...
Minha cabeça rodava e não tinha uma direção certa. Eu achava que ia cair no meio da rua. E eu cai... Em toda aquela neve... Eu virei de lado, encolhi minhas pernas e abracei a garrafa. Eu fazia pequenos montes de neve e destruia com a garrafa. Eu deitei com as costas pra baixo e ergui meu corpo pra cima numa tentativa falha de me levantar dali e com toda certeza eu não queria mesmo levantar. Jane veio em minha direção. Eu estava acabado desde cedo. Ela me levantou. E eu vi que Rich estava com ela. Ele me olhou assustado e preocupado. Ajoelhou-se. E pegou em minha mão. Eu me livrei das mãos dele de súbito. Ele sentou-se na neve. Triste. Eu o olhei com uma repulsa. Jane nos olhou. Ajoelhou e uniu minhas mãos e as de Rich. Subiu numa árvore e comia balas. Eu olhei Rich e ele me olhou. Suas mãos quentes me davam um arrepio familiar. Ele alisou minhas mãos e disse que ia pra casa. Tentou se levantar, mas eu não deixei. Eu segurei suas mãos e ele sentou outra vez. Eu olhei pra ele e ele estava triste. Eu o abracei. Forte. Muito forte.
-George. Você tá bem? -Ele cortou o abraço dessa vez segurando em meu rosto. Eu estava tão desesperado que nem sabia o que falar pra ele. Ele percebeu que eu não conseguia falar. Secou meu rosto com a manga da blusa dele e me deitou em seu colo. Alisando meus cabelos.
-Cara. Eu to aqui. George o que foi? Porque você tava caido aqui no chão? O que aconteceu com você? Falaaa! -George! -Disse me levantando. -Segurou meu rosto firmemente. Jane desceu da árvore. Teve que ajudar. Ela segurou Rich. Levantou. Estendeu a mão a mim e me ajudou a levantar. Eu mal conseguia parar em pé de tão bebado que eu estava. Eu não podia ir pra casa daquele jeito. Eu não tinha onde ficar. Rich disse que eu podia ficar em seu sofá. Eu aceitei. Fui pra casa de Rich e Jane foi embora com suas balas. Eu cai no sofá de Rich. Chorando. Ele me cobriu. Eu me ajeitei no sofá e dormi que nem uma pedra.
Quando eu acordei ele estava fumando sentado na outra parte do sofá. Eu esfreguei meus olhos pra ter certeza de que eu estava mesmo na casa de Rich. E ele olhava pra mim. Eu sentei no sofá. Me cobri com o cobertor de Rich. E ele soprava a fumaça do cigarro. Olhou pra mim.
-Eu não consegui dormir a noite. Passei a noite toda aqui. Eu não consegui dormir. E ainda estou sem sono. - Ele sentou do meu lado. -Sabe... E a Pattie?
-Pattie ta trabalhando. Ela é modelo.
-E naquela noite que você ficou com a Pattie naquele hotel?
-Não aconteceu nada.
-Como?
-Não aconteceu nada. Ela dormiu na cama e eu dormi no sofá.
-Achou errado?
-Sim. -Eu me encolhi de frio no sofá. -E o Jon?
Ele percebeu o que tinha feito eu ficar daquele jeito.
-Agente ficou ontem. E foi bom até...
-Bom?
-Sim...
Eu me levantei, coloquei meu casaco e sai. Estava muito frio. Rich foi atraz. Segurou meu braço e me puxou. Colou o rosto dele no meu e me beijou. Chorando. Me soltou com força. E eu cai no chão da frente da casa dele.
Eu o olhei com repulsa. Com ódio. Me levantei e fui pra casa, minha cabeça latejava. Eu nem entrei pela porta, subi a arvore e entrei pela janela. Deitei na minha cama e lá fiquei o dia todo. A noite acordei e faltei ao ensaio. Fiquei deitado em minha cama. De manhã faltei na escola. Fiquei deitado em minha cama. Eu dormia e meu amor também. Minha mãe cobrava-me a dias que eu limpasse meu quarto. Eu não conseguia pensar em mais nada. Eles me compraram. Me distrairam. Me corromperam. Eu ficava deitado em minha cama. Com todo erro certamente precisamos aprender. E eu ficava deitado em minha cama. Não conseguia achar nenhuma resposta, mas eu sabia que tinha alguma. Ninguém me alertou de nada. Eu só tinha 14 anos. Eu ficava deitado em minha cama apenas envelhecendo. Não sei como ninguém me disse pra acertar meu amor num único alvo. Eu ficava deitado em minha cama, ligava e desligava a tv. Minha mãe dizia que queria se mudar. E eu na minha cama.
Nos mudamos uma semana depois pra uma casa terreo, na rua atraz da casa de Rich. Minha guitarra chorava num canto da sala vazia cheia de caixotes. Havia dos maiores até os menores, que abrigavam as coisas velhas da minha mãe: Bijouterias e joias que ela havia ganhado do meu pai. Eu fui até meu quarto. Larguei minhas coisas lá, a noite o cara viria montar minha cama e ligar minha tv. Eu não tinha muito o que fazer, pus um casaco e sai andando pelas ruas, eu não conhecia nada ali. Eu vi Rich. Ele estava na árvore com Jon. Eu passei reto e ele me olhou. Ele seguiu meus passos com os olhos. E Jon me chamou gritando.
-Cara! Vem cá... -Jon desceu da árvore e foi até mim. -Cara e a banda? -Senti na voz de Jon um tom de preocupação e cinismo. Dei de ombros
-Foda-se a banda. -Sai andando e o que eu mais queria era que me deixassem em paz.
-Como assim foda-se George? Você é nosso guitarrista, nosso amigo...
-Agora eu sou amigo, né? -Dei de ombros e Rich olhou pra mim e pra Jon. Eu sai andando. Calmo. Controlando meus passos com a mente. E como eu precisava sair logo dali, andava calma e rapidamente. Jon me seguiu mas depois desistiu e ficou parado no meio do gramado, me olhando de longe, com os ombros curvos e mãos que alcançavam os joelhos. Eu fui embora. Quando eu estava longe Rich desceu e foi atraz de mim. Calma e rapidamente que nem eu. Eu sentei no meio fio da calçada da minha casa. Coloquei as mãos na cabeça. Depois peguei umas pedras de gelo, as que sobraram de alguns dias atraz e apertei contra os dedos. Rich sentou no meio fio ao meu lado. Virou a cabeça em minha direção. E colocou as mãos em meus ombros. Eu empurrei o braço dele e levantei-me de um susto. Olhei Rich e ele estava triste. Ele se levantou. Foi até mim e me deu um abraço apertado. Me pediu desculpas e se foi. Eu levantei minha mão como se ela fosse gritar o nome de Rich mas foi muito em vão ele se foi rápido demais. Enquanto eu tentava achar a chave da porta de casa, olhei os bolsos, olhei todos eles e a chave não estava lá, em nenhum deles. Acho que eu devia ter esquecido em casa mesmo. Eu estava trancado pra fora. De súbito senti um vento em minhas costas. Um vento gelado, meio fora do comum. Que veio rápido e se estacionou atraz de mim. Um mão segurou em meu braço e me levou até um carro. Era um carro escuro... Eu estava com medo... Nem vi a cor do carro. Somente vi que era um homem loiro, barba mal feita e que machucava meu braço. Ele me jogou pra dentro do carro e pediu pra eu calar minha boca, não falar nada. Eu tremia e suava frio. Olhando pra janela esperando alguém aparecer. Mas não tinha ninguém na rua. Ninguém mesmo. Pararam o carro e me jogaram pra fora, num lugar vazio. Um descampado enorme. Eu não entendia nada, mas comecei a achar que queriam abusar de mim. Abaixaram minhas calças numa fração de segundos e eu comecei a gritar... Eu podia sentir que Rich ainda estava por perto, mas que não podia me ouvir, então eu gritei o mais alto que eu pude, gritei tão alto que achei que tinha ficado surdo. Eles abusaram do meu corpo e da minha alma, na minha mente tinha um buraco e eu sentia o sangue escorrer pelas minhas pernas e descer pelos meus joelhos. Eles batiam em minhas coxas e elas ficaram vermelhas. Perguntei a mim mesmo se ninguém me ajudaria. Isso durou, em minha mente, em minha dor, uns 40 minutos. Então me deixaram deitado no chão de barriga pra baixo, com as calças abaixadas, numa situação constrangedora. Eu passei a mão sobre as costas do meu joelho direito e havia sangue em minhas pernas. Eu chorava sobre a grama esperando que alguém me ajudasse a sair daquele lugar. Eu gritava, mas ninguém me ouvia.
Uns 10 minutos depois eu via alguém vindo em minha direção... Eram olhos azuis, o azul da ressaca do mar, era Rich. Ele veio correndo. Eu tentava me levantar, mas não podia. Ele segurou meus braços.
-O que houve George!?! -Disse ele assustado.
Eu mal consseguia falar nada, mas tentei.
-Eles... Eu... Eu não achei a chave de casa... Eles apareceram... E... E me botaram dentro do carro... Eles me forçaram... Eu... Eu juro. Eu não conssegui gritar... Eles me bateram... Eu chamei seu nome... Mas não conssegui gritar... Eu... Eles... -Disse eu gaguejando, embolando as palavras.
-George você está sangrando! Eu vou ter que te levar pro hospital. Ai depois agente vai na polícia, certo? Eu to aqui agora. Eles já foram. -Ele me abraçou forte, passando as duas mãos sobre os meus cabelos. Ele pedia calma. Eu não queria um médico. Eu queria Rich.
-Me leva pra sua casa? -Eu disse olhando nos olhos dele. Ele me olhou com um desejo que não existia a semanas. Com aqueles olhos. Ele os fechou rapidamente e os abriu devagar.
-Eu te levo sim! -Ele segurou minha cintura e seu ombro, me apoiando pra não cair. E aquele cheiro de carmim veio novamente em meu olfato. Entramos na casa de Rich. Ele fechou a porta. Eu sentei em seu sofá. E ele sentou-se ao meu lado perssistindo, em seus pálidos olhos azuis. Eu os olhava hipnotizado. Ele soltou uma lágrima do olho esquerdo e passou a mão em meu rosto, descendo ela até meu pescoço. Eu virei minha cabeça e fechei os olhos. Ele chegou perto e me beijou. Um beijo que me trazia ótimas lembranças. Eu cortei o beijo no meio, olhando pra baixo. Ele levantou meu rosto com o dedo indicador. Me pediu desculpas e se levantou. Colocou as mãos na cintura e se virou pra mim. Eu tremia e chorava. Tudo ao mesmo tempo. Ele se agachou e colocou as mãos em meus joelhos.

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While my guitar gently weeps (11)

Enfim eramos uma banda, uma banda de status, de concorrência com muitas outras por ai. Concorrência eu digo de fãs, houve episódios em que fãs de bandas distintas trocaram socos e insultos no meio da rua. Mas nós equanto 'estrelas' eramos amigos. Um amigo de John não tava nem ai pra isso, pra essa histeria toda, o negócio dele era pegar as mulheres. Meu Deus. Seu nome era Mick. Era bonito e tudo mas eu nem podia olha-lo por causa de Rich.
Então devido a histeria das fãs o empresário tirou Rich de minhas mãos e me deu de presente uma loira, bonita de olhos claros. Ela era uma modelo também famosa. Seu nome era Pattie. Não entendi o porque de me jogarem aquela loira e aos outros somente esconder suas respectivas namoradas. Mas a mim tiraram o Rich e colocaram Pattie no lugar. Nosso primeiro encontro foi frio de minha parte, ela queria saber de tudo. Até do dia que nasci.
O empresário comprou uma noite num hotel pra mim e pra ela... Ai quando eu olhava na janela havia pessoas fotografando, creio que a mando do empresário. Eu e Pattie não fizemos nada naquele quarto de hotel.
No dia depois daquele, eu fui para o ensaio e Rich ainda não havia chegado. Eu gostava de ir aos ensaios, pelo menos eu o via, triste, mas eu o via. Então naquele dia, Rich chegou e sentou-se sem falar com ninguém, pegou suas baquetas e solou durante 15 minutos sem ninguém lhe chamar a atenção, ninguém disse nada... Eu o olhei, ergui minha sombrancelha direita levemente e me impressionei, afinal eu ouvia ele tocar sempre... Mas nunca o vi solar daquele jeito, parecia que ele queria descontar a raiva dele em algo, ou melhor, em alguém. Paul estava com sua suposta namoradinha... A dos tempos de escola, Jane, a sua ruiva e doce Jane, eu gostava dela... Era íntegra... E não plastificada que nem a Pattie. Rich estava mal e eu subi no palco onde ele estava, coloquei a mão em seu ombro e ele jogou uma das baquetas longe em sinal de reflexo ao meu toque. Ele se levantou com raiva, chorando, olhou pra mim de cima a baixo.
-Quem você pensa que é? -Disse ele com o hálito de vinho. -Eu não vou aguentar ficar aqui. Tem muita gente melhor que eu pra tocar essa porra dessa bateria. -Disse agora aumentando o volume da voz comigo. -Eu não fico aqui nem fodendo! -Disse pegando a garrafa que estava encostada numa cadeira, pegou também um moleton azul e saiu. Eu pude ver John indo atraz dele gritando o nome de Rich. Eu me sentei no palco, triste, eu amava Rich. Pensei em largar a banda, mas aquele era meu sonho sabe? Ter uma banda e largar todo mundo e tudo pra sair viajando pros lugares que a professora falava na aula de geografia. Mas Rich... Rich tinha os olhos mais lindos que já vi... E ninguém dava a ele seu devido valor... Fico me perguntando se ele já não tinha me visto antes daquele atropelamento... Mas depois meu pensamento fica vago... Tentando achar uma resposta que derepente nem exista... Pattie estava em sua casa. Graças a Deus que não havia assistido a cena. John voltou com Rich e Rich cambaleava pelo Pub. Voltou ao seu Kit bateria e ficou olhando o nada, esperando alguém avisar o que ele podia ou não fazer, o que ele podia ou não tocar. Derepente ele caiu no chão, ele estava bebado a horas. John foi até ele e percebeu que estava desacordado e quente. Pediu uma ambulância que levou Rich a um hospital perto de um orfanato. John disse pra eu ir embora e que não precisava de mim lá. Eu me magoei com John e sai cabisbaixo de lá até minha casa. Eu estava preocupado com Rich, mas ninguém queria me dizer nada... Apenas Jane, que se preocupou com Rich e comigo também... Ela foi até minha casa, me seguindo pé ante pé. Segurou meu braço e sorriu timida e triste.
-Oi. Então né... é... Ele vai ficar bem cara... Vai sim... -Sorriu soltando meu braço.
-Você tem notícias do Rich? -Eu disse com um pingo de esperança em meus olhos.
-Não tenho não... A única coisa que eu tenho é a certeza de que ele vai ficar bem. -Ela fechou os olhos e abriu-os de súbito.
-Obrigado pela força. Ninguém me deixou ficar lá com ele. -Eu abaixei minha cabeça e ela levantou-a com um dedo, eu senti sua áurea transparecer sobre o lugar que estavamos e parecia que ela tinha vindo de outro mundo ou que alguma força maior tinha mandado ela a mim naquele dia... Eu sabia de seu passado... Não era dos melhores... Mas algo me dizia que ela estava ali pra me ajudar... Sabe pra conversar comigo.
Ela se sentou no meio da grama de pernas cruzadas e disse pra eu sentar também. Eu sentei. Ela pegou minhas duas mãos, fechou os olhos e agora ela parecia feliz e meditava. Meditamos . Enfim ela soltou minhas mãos e olhou nos meus olhos.
-Ele está bem agora. -Saiu andando.
Eu a olhei e me senti bem. Eu fui em direção a porta e observei que ela saltitava entre as grandes gramas do meu jardim. Ela ia pra casa. E eu também. Quando entrei recebi um telefonema de Rory dizendo que Rich já estava em casa. Desligamos. Eu fui para o meu quarto e me joguei na cama. Levantei. Sentei na minha poltrona verde. Levantei. Olhei o telefone. Sentei. Levantei. andei pelo quarto todo sem tirar meus olhos do telefone. Eu não tinha coragem então sentei novamente. Peguei o telefone. Larguei ele. Peguei denovo. Disquei os números. Desliguei. Peguei o telefone novamente e percebi que tinha que ter coragem uma vez na vida. Então liguei de vez. Quem atendeu foi John. Eu tomei um susto desses enormes. Cai da poltrona verde de veludo. E John do outro lado da linha dizia:
-Oi george, tudo bem? -Disse John feliz.
-Tudo ótimo. Rich está ai? -Eu disse caido no chão.
-Sim ele está... Você quer falar com ele? -Disse John num tom de dúvida e passou o telefone pra Rich.
-Oi. -Disse Rich meio sem vontade de falar.
-Queria somente saber se você está bem... E...
-Eu to bem sim... Eu tenho uma companhia muito boa... E nós vamos andar de moto até aquele morro florido sabe?
Eu fiquei sem voz no telefone. Eu tentava falar, mas minha voz não saia. Até que saiu e eu comecei a chorar. Rich ouviu do outro lado e calou o riso de John.
-George? -Ele dizia e eu não respondia. -George! George!
-Estou aqui. -Eu disse tentando não chorar mais.
-O que houve?
-Queria pedir desculpas por tudo, por ter ficado com Paul, por estar aceitando a Pattie e por ter te ligado.
Rich se calou do outro lado também e eu desliguei o telefone. Fui pro meu banho. Estava nevando outra vez. Estava frio. Eu sentei no chão embaixo do chuveiro e deixei que a água quente caísse em mim. Por um instante de alucinação me veio as mãos de Rich em minhas costas me arranhando e eu chorava. Senti seu cheiro de carmim. Balancei a cabeça pra ver se era só ilusão mesmo, mas não era, era uma especie de lembranças e ilusões vagas. E eu chorava. Joguei o vidro de shampoo na parede e vi o conteúdo vazar pelas rachaduras que causei. Queria morrer lembrando da voz cinica de John. Enfim, olhei a pia. Me apoiei e me levantei. Desliguei o chuveiro. Me vesti e sai. Paul ia dar uma festa e o que eu tinha a perder indo a festa dele? Eu já tava ferrado mesmo. Pattie não foi. Estava num ensaio fotográfico. Então eu fui. Cheguei lá e a porta estava aberta. Eu entrei e Paul veio falar comigo.

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