While my guitar gently weeps (12)

-Tem muita gente ai? -Perguntei a ele.
-Tem... Quer beber o que? -Ele disse pegando uma garrafa pra mim. Eu o olhei.
-Vou beber isso que você me deu mesmo. -Dei um sorriso amarelo e sentei na escada. Abri a garrafa e dei um gole grande. Paul chegou com maconha e cigarros. Eu peguei uma bagana e ascendi. Coloquei na boca e traguei quase tudo de uma vez. Estendi meu corpo sobre os degraus. Tocava uma música triste, mas que ao mesmo tempo me fazia querer dançar. Ela tinha algo mais que uma simples musica... Perguntei a Paul quem cantava e ele deu de ombros. Ele não sabia de quem era a música. Mas mesmo assim eu gostava dela... Era diferente do Skiffle. Era diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Então me levantei e fui até onde Paul estava. Conversamos sobre algumas coisas. E John chegou sozinho. Cumprimentou a todos com um aperto de mãos. E alguém nos ofereceu doces. Eu levantei minha sombracelha direita. Olhei pra quem entregava e disse que ia aceitar um. Depois de mim todos pegaram um doce. Rich chegou e cumprimentou todos com um oi. Me olhou e perguntou se eu estava bem. Eu respondi que sim. Eu perguntei também. Ele disse que ia ficar bem. Ele abraçou John. Eu via a mão dele na cintura de Jon. Eu queria apartar. Mas não podia. Eu não mandava na vida de Rich. Eles se retiraram da sala e foram andar pela casa de Paul. Eu segui os dois com os olhos. E eles ficaram embaixo da escada. Jon alisava o peito de Rich, era eu quem tinha que fazer aquilo. Aquele maldito cheiro de camim impregnava a roupa de Jon, mas eram minhas roupas que tinham que ter esse cheiro. Eu não sei porque mas eu não aguentava ver aquilo. Eu só queria ter certeza de que estavam mesmo transando em baixo da escada e estavam. Eu comecei a chorar de ódio. Peguei minha garrafa e fui pra casa. Eu andava pela rua de Paul e pra todo lugar que eu olhava eu via Rich. Eu devia estar bebado sei lá... Eu sei que eu via ele em cima da árvore... Eu o via encostado nos carros da rua, nas portas das casas, enfim...
Minha cabeça rodava e não tinha uma direção certa. Eu achava que ia cair no meio da rua. E eu cai... Em toda aquela neve... Eu virei de lado, encolhi minhas pernas e abracei a garrafa. Eu fazia pequenos montes de neve e destruia com a garrafa. Eu deitei com as costas pra baixo e ergui meu corpo pra cima numa tentativa falha de me levantar dali e com toda certeza eu não queria mesmo levantar. Jane veio em minha direção. Eu estava acabado desde cedo. Ela me levantou. E eu vi que Rich estava com ela. Ele me olhou assustado e preocupado. Ajoelhou-se. E pegou em minha mão. Eu me livrei das mãos dele de súbito. Ele sentou-se na neve. Triste. Eu o olhei com uma repulsa. Jane nos olhou. Ajoelhou e uniu minhas mãos e as de Rich. Subiu numa árvore e comia balas. Eu olhei Rich e ele me olhou. Suas mãos quentes me davam um arrepio familiar. Ele alisou minhas mãos e disse que ia pra casa. Tentou se levantar, mas eu não deixei. Eu segurei suas mãos e ele sentou outra vez. Eu olhei pra ele e ele estava triste. Eu o abracei. Forte. Muito forte.
-George. Você tá bem? -Ele cortou o abraço dessa vez segurando em meu rosto. Eu estava tão desesperado que nem sabia o que falar pra ele. Ele percebeu que eu não conseguia falar. Secou meu rosto com a manga da blusa dele e me deitou em seu colo. Alisando meus cabelos.
-Cara. Eu to aqui. George o que foi? Porque você tava caido aqui no chão? O que aconteceu com você? Falaaa! -George! -Disse me levantando. -Segurou meu rosto firmemente. Jane desceu da árvore. Teve que ajudar. Ela segurou Rich. Levantou. Estendeu a mão a mim e me ajudou a levantar. Eu mal conseguia parar em pé de tão bebado que eu estava. Eu não podia ir pra casa daquele jeito. Eu não tinha onde ficar. Rich disse que eu podia ficar em seu sofá. Eu aceitei. Fui pra casa de Rich e Jane foi embora com suas balas. Eu cai no sofá de Rich. Chorando. Ele me cobriu. Eu me ajeitei no sofá e dormi que nem uma pedra.
Quando eu acordei ele estava fumando sentado na outra parte do sofá. Eu esfreguei meus olhos pra ter certeza de que eu estava mesmo na casa de Rich. E ele olhava pra mim. Eu sentei no sofá. Me cobri com o cobertor de Rich. E ele soprava a fumaça do cigarro. Olhou pra mim.
-Eu não consegui dormir a noite. Passei a noite toda aqui. Eu não consegui dormir. E ainda estou sem sono. - Ele sentou do meu lado. -Sabe... E a Pattie?
-Pattie ta trabalhando. Ela é modelo.
-E naquela noite que você ficou com a Pattie naquele hotel?
-Não aconteceu nada.
-Como?
-Não aconteceu nada. Ela dormiu na cama e eu dormi no sofá.
-Achou errado?
-Sim. -Eu me encolhi de frio no sofá. -E o Jon?
Ele percebeu o que tinha feito eu ficar daquele jeito.
-Agente ficou ontem. E foi bom até...
-Bom?
-Sim...
Eu me levantei, coloquei meu casaco e sai. Estava muito frio. Rich foi atraz. Segurou meu braço e me puxou. Colou o rosto dele no meu e me beijou. Chorando. Me soltou com força. E eu cai no chão da frente da casa dele.
Eu o olhei com repulsa. Com ódio. Me levantei e fui pra casa, minha cabeça latejava. Eu nem entrei pela porta, subi a arvore e entrei pela janela. Deitei na minha cama e lá fiquei o dia todo. A noite acordei e faltei ao ensaio. Fiquei deitado em minha cama. De manhã faltei na escola. Fiquei deitado em minha cama. Eu dormia e meu amor também. Minha mãe cobrava-me a dias que eu limpasse meu quarto. Eu não conseguia pensar em mais nada. Eles me compraram. Me distrairam. Me corromperam. Eu ficava deitado em minha cama. Com todo erro certamente precisamos aprender. E eu ficava deitado em minha cama. Não conseguia achar nenhuma resposta, mas eu sabia que tinha alguma. Ninguém me alertou de nada. Eu só tinha 14 anos. Eu ficava deitado em minha cama apenas envelhecendo. Não sei como ninguém me disse pra acertar meu amor num único alvo. Eu ficava deitado em minha cama, ligava e desligava a tv. Minha mãe dizia que queria se mudar. E eu na minha cama.
Nos mudamos uma semana depois pra uma casa terreo, na rua atraz da casa de Rich. Minha guitarra chorava num canto da sala vazia cheia de caixotes. Havia dos maiores até os menores, que abrigavam as coisas velhas da minha mãe: Bijouterias e joias que ela havia ganhado do meu pai. Eu fui até meu quarto. Larguei minhas coisas lá, a noite o cara viria montar minha cama e ligar minha tv. Eu não tinha muito o que fazer, pus um casaco e sai andando pelas ruas, eu não conhecia nada ali. Eu vi Rich. Ele estava na árvore com Jon. Eu passei reto e ele me olhou. Ele seguiu meus passos com os olhos. E Jon me chamou gritando.
-Cara! Vem cá... -Jon desceu da árvore e foi até mim. -Cara e a banda? -Senti na voz de Jon um tom de preocupação e cinismo. Dei de ombros
-Foda-se a banda. -Sai andando e o que eu mais queria era que me deixassem em paz.
-Como assim foda-se George? Você é nosso guitarrista, nosso amigo...
-Agora eu sou amigo, né? -Dei de ombros e Rich olhou pra mim e pra Jon. Eu sai andando. Calmo. Controlando meus passos com a mente. E como eu precisava sair logo dali, andava calma e rapidamente. Jon me seguiu mas depois desistiu e ficou parado no meio do gramado, me olhando de longe, com os ombros curvos e mãos que alcançavam os joelhos. Eu fui embora. Quando eu estava longe Rich desceu e foi atraz de mim. Calma e rapidamente que nem eu. Eu sentei no meio fio da calçada da minha casa. Coloquei as mãos na cabeça. Depois peguei umas pedras de gelo, as que sobraram de alguns dias atraz e apertei contra os dedos. Rich sentou no meio fio ao meu lado. Virou a cabeça em minha direção. E colocou as mãos em meus ombros. Eu empurrei o braço dele e levantei-me de um susto. Olhei Rich e ele estava triste. Ele se levantou. Foi até mim e me deu um abraço apertado. Me pediu desculpas e se foi. Eu levantei minha mão como se ela fosse gritar o nome de Rich mas foi muito em vão ele se foi rápido demais. Enquanto eu tentava achar a chave da porta de casa, olhei os bolsos, olhei todos eles e a chave não estava lá, em nenhum deles. Acho que eu devia ter esquecido em casa mesmo. Eu estava trancado pra fora. De súbito senti um vento em minhas costas. Um vento gelado, meio fora do comum. Que veio rápido e se estacionou atraz de mim. Um mão segurou em meu braço e me levou até um carro. Era um carro escuro... Eu estava com medo... Nem vi a cor do carro. Somente vi que era um homem loiro, barba mal feita e que machucava meu braço. Ele me jogou pra dentro do carro e pediu pra eu calar minha boca, não falar nada. Eu tremia e suava frio. Olhando pra janela esperando alguém aparecer. Mas não tinha ninguém na rua. Ninguém mesmo. Pararam o carro e me jogaram pra fora, num lugar vazio. Um descampado enorme. Eu não entendia nada, mas comecei a achar que queriam abusar de mim. Abaixaram minhas calças numa fração de segundos e eu comecei a gritar... Eu podia sentir que Rich ainda estava por perto, mas que não podia me ouvir, então eu gritei o mais alto que eu pude, gritei tão alto que achei que tinha ficado surdo. Eles abusaram do meu corpo e da minha alma, na minha mente tinha um buraco e eu sentia o sangue escorrer pelas minhas pernas e descer pelos meus joelhos. Eles batiam em minhas coxas e elas ficaram vermelhas. Perguntei a mim mesmo se ninguém me ajudaria. Isso durou, em minha mente, em minha dor, uns 40 minutos. Então me deixaram deitado no chão de barriga pra baixo, com as calças abaixadas, numa situação constrangedora. Eu passei a mão sobre as costas do meu joelho direito e havia sangue em minhas pernas. Eu chorava sobre a grama esperando que alguém me ajudasse a sair daquele lugar. Eu gritava, mas ninguém me ouvia.
Uns 10 minutos depois eu via alguém vindo em minha direção... Eram olhos azuis, o azul da ressaca do mar, era Rich. Ele veio correndo. Eu tentava me levantar, mas não podia. Ele segurou meus braços.
-O que houve George!?! -Disse ele assustado.
Eu mal consseguia falar nada, mas tentei.
-Eles... Eu... Eu não achei a chave de casa... Eles apareceram... E... E me botaram dentro do carro... Eles me forçaram... Eu... Eu juro. Eu não conssegui gritar... Eles me bateram... Eu chamei seu nome... Mas não conssegui gritar... Eu... Eles... -Disse eu gaguejando, embolando as palavras.
-George você está sangrando! Eu vou ter que te levar pro hospital. Ai depois agente vai na polícia, certo? Eu to aqui agora. Eles já foram. -Ele me abraçou forte, passando as duas mãos sobre os meus cabelos. Ele pedia calma. Eu não queria um médico. Eu queria Rich.
-Me leva pra sua casa? -Eu disse olhando nos olhos dele. Ele me olhou com um desejo que não existia a semanas. Com aqueles olhos. Ele os fechou rapidamente e os abriu devagar.
-Eu te levo sim! -Ele segurou minha cintura e seu ombro, me apoiando pra não cair. E aquele cheiro de carmim veio novamente em meu olfato. Entramos na casa de Rich. Ele fechou a porta. Eu sentei em seu sofá. E ele sentou-se ao meu lado perssistindo, em seus pálidos olhos azuis. Eu os olhava hipnotizado. Ele soltou uma lágrima do olho esquerdo e passou a mão em meu rosto, descendo ela até meu pescoço. Eu virei minha cabeça e fechei os olhos. Ele chegou perto e me beijou. Um beijo que me trazia ótimas lembranças. Eu cortei o beijo no meio, olhando pra baixo. Ele levantou meu rosto com o dedo indicador. Me pediu desculpas e se levantou. Colocou as mãos na cintura e se virou pra mim. Eu tremia e chorava. Tudo ao mesmo tempo. Ele se agachou e colocou as mãos em meus joelhos.

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