While my guitar gently weeps (18)

Fui tomar banho e eu ficava perdido nos meus pensamentos e me perguntava 'Por que tudo que eu fiz com George não foi com Paul?', depois eu parava pra pensar que tudo que eu fiz com George poderia ser melhor agora com Paul. Decidi acabar com as coisas na tal festa que Rory ia tocar. Ele tava ficando bem popular por aí. Na semana seguinte ele iria tocar no Cavern. E eu estava tão orgulhoso dele. Abri o vitrô do banheiro pra olhar a rua enquanto a água caía em meu corpo, me aquecendo um pouco. Lavei meu cabelo e me ensaboei. George deixava sempre sua marca em meu corpo, como os arranhões. Eles eram tão constantes que eu nem mais ligava pra eles. Enxaguei meu cabelo e meu corpo. Fechei o vitrô e desliguei o chuveiro.
Saí e me sequei. Coloquei a calça do meu pijama e deitei. Liguei a T.V e peguei a garrafa de vinho que estava embaixo da minha cama. Depois de um longo tempo, reparei que minha mãe havia trocado o porta-retratos com a foto do meu pai. Ignorei e fui ver o filme que estava passando na T.V.
Era um suspense do Hitchcok. Eu gostava, mas preferia Fellini. Mudei o canal e fiquei vendo uns desenhos antes de pegar no sono. Adormeci com um personagem batendo no outro.
De manhã, quando eu acordei George estava sentado na poltrona que havia na frente da minha cama. Ele parecia mais bonito. Mais alegre.
-Rich... Bom dia! - Me deu um sorriso largo e eu sentei em minha cama sorrindo.
-Bom dia, George! O que faz aqui tão cedo? Me parece feliz...
George sentou-se bem perto de mim. De certo não escutou Paul dizer que me amava no telefone.
-Estou feliz com uma decisão que tomei ontém e acho que não consigo parar de pensar nisso e eu nem dormi direito... - George me pareceu meio ancioso.
-Fala...
-Quer casar comigo?
Meu mundo caiu. E o de George também ia cair em breve. Eu, pra ser bem sincero, não entendi o que ele quis dizer com 'casar'.
-Que?
-Casar...
-George, era sobre isso que eu queria falar com você na festa.
-Que?
-É que assim, a um tempo eu venho me sentido apegado com Paul.
-Que? Então é assim? Com o Paul?
-Seria melhor eu ter feito tudo pelas costas então?
-Seria melhor você não ter começado com isso... E eu achando que íamos ficar todo mundo na boa com todo mundo. Porque afinal, eu dormi com Paul uma vez, você não ficou mal porcausa de mim, certo? Foi porcausa de Paul?
-Não! Foi sim por causa dele. É que ele tem um vazio como eu...
-Eu sou tão inútil que não consigo preencher seu vazio?
-Você não é inútil, George. É que você não tem esse vazio que agente tem... - Fui interrompido por George.
-Você acha que eu não sinto vazio nenhum? Você acha que eu sou O completo, O inteiro?
-E não é?
-Por que eu seria? Se eu tenho pai, mas ele fica metade do tempo fora de casa... Se ao inves de querer ficar comigo e com minha mãe um pouco ele quer ficar no trabalho com seu monte de papeis inúteis e sua secretária feia e mal-arrumada?
Fiquei num silêncio que a tempos não ficava. George prosseguiu.
-Por que eu seria completo, se o Deus em quem eu acreditava, ontem me disse num sonho que não existe... Mas sim que as pessoas acreditam nisso pra poderem ser completas? As pessoas querem ser completas de algum jeito... E a única coisa que fazia eu ficar completo era Deus e você. Eu achava que por Deus ter me dito algo naquela alucinação que me deu ontem de madrugada, que você não iria dizer algo tão parecido. Ou aquilo, talvez tenha sido um aviso. Acho que vou ser esotérico de agora em diante, por que pelo menos eu vou ter no que acreditar. Talvez Buda. Eu nem sei quem é Buda. Quem é Buda?
-Só posso dizer que segundo os livros de história Buda realmente existiu.
-Isso me deixa contente ao menos. Vou estudar. Não vou a festa ver Rory tocar, não. Vou ficar em casa e vou procurar algum livro sobre Buda.
-Ainda é meu amigo?
-Você vai me ensinar sobre Buda?
-Você quer?
-Você é inteligente, não?
-Acho que não, sei lá. - George largou o sorriso do rosto.
-Eu queria te completar... Mas acho que não sou tão inteligente pra isso. Você é inteligente, por que afinal Paul é um grande cara. Quero que me perdoe se fiz algo errado. Eu só errei tentando acertar...
-É o que todos nós fazemos.
George me abraçou, pela última vez tentando me completar. Eu o abracei também numa tentativa falha de tentar completa-lo.
-Agente se vê?
-Amanhã?
-Hoje?
-Vai na festa então?
-Se você, Paul e John forem...
-Eu vou sim.
-Até mais tarde, Rich!
George saiu acenando pra mim todo atrapalhado e tropeçou na dobra do tapete. Rindo muito, eu fui até a porta e fechei. Liguei pra casa de John e Cynthia atendeu. Meia triste, ela disse que John estava na casa da tia. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse que depois queria um conselho meu. Desligamos e eu liguei pra casa de Tia Mimi. Mimi atendeu meia brava. Pedi pra passar pro John se não tivesse problema.
-Alô. -John disse meio cansado.
-Johnny? Que houve?
-É que... Parece que a Cyn passou a noite de ontem com a Jane no sofá. Eu to puto com ela. Puto com a Jane. Puto com o Paul que não controla a namorada dele.
-John... Eu amo Paul!
-QUÊ?
Pensei no por que de eu ter falado aquilo pro John aquela hora...
-Liguei pra te perguntar se você vai na tal festa hoje...
-Vou... Eu acho. Não to com muita vontade não, não vou te enganar.
-É que eu andei pensando... George quer saber coisas sobre Buda. E como você...
-Tá pedindo pra eu ensinar coisas sobre Buda ao George? Ele vai me ouvir?
-Antigamente ele era mais teimoso, não era?
-Você não era namorado dele?
-Perdi, right...
John riu meio sem graça do outro lado da linha. Mas depois achou que estudar coisas seria uma forma de esquecer Cynthia.
-Depois eu falo com George então... Mas você e Paul também sabem sobre Buda, Shiva e todos esses caras aí...
-Eu entendo sobre Shiva e não sobre Buda.
-Já é alguma coisa, não?
-Sim... John, tenho que tomar banho. Depois agente vai ao tal do show do Rory.
-Right, Rich.
-Trocadilho legal.
-Thanks.
Desligamos e eu fui tomar banho. Nunca me vi tão bem arrumado. A última vez foi num dos meus aniversários de criança. Saí de casa e o cheiro de carmim se espalhou pela sala. Ouvi minha mãe espirrar no sofá. Tampei o nariz dela e ela riu. Beijei sua testa e saí fechando a porta delicadamente, como a tempos não fazia. Minha mãe deve até ter estranhado. Antes de fechar a porta por completo, ouvi um 'eu te amo' dela. Sorri e saí de vez.
Tinha uns malucos na rua. Eles acenaram e eu também. Coloquei minhas mãos no bolso. E soprei o ar gelado que estava em meus pulmões. Do nada começou a nevar de leve e eu andei um pouco mais rápido. Bati na porta da casa de Paul. Meio constragido, meio ancioso. Paul abriu feliz e sorriu. Ele vestia um paletó meio surrado, mas ainda sim não conseguia perder a classe. Sua calça social era também meia velha. Mas o que eu reparei foi o brilho nos olhos de Paul. Eu o abracei forte. Me senti completo como nunca havia me sentido. Paul disse bem baixinho, perto da minha orelha.
-Você me completa. - Mordeu o lóbulo da minha orelha e eu senti um arrepio do cóx até o último fio de cabelo. Eu o olhei meio trêmulo.
-Leu minha mente?
-Sou vidente, esqueceu? - Disse sorrindo e desceu o degrau que tinha na frente da porta de sua casa. Segurei sua mão e saímos pela rua até a casa de George. Avistamos John batendo na porta. Quando chegamos ele nos viu e tossiu. Ficou meio sem graça e suas boxexas coraram.
-Veio ensinar história pro George, John? - Paul disse e tocou meu ombro com os lábios tentando segurar o riso. Eu virei meu rosto pra traz, com o queixo encostado no colo de Paul, tentando segurar minha risada também. John ficou meio irritado com a piada de Paul e bateu com mais força na porta da casa de George. George abriu e sorriu pra John. Acenou pra Paul e pra mim. Fechou a porta e fomos. George aprendeu a ser abusado comigo. Acho que minha fama não era das melhores. George tinha ficado um pouco menos tímido conforme o tempo, mas John, John era O abusado. Enquanto andavamos ele segurou a cintura de George e Paul era bom em guardar a risada pra depois poder rir sozinho.
Na hora me veio a cena de Paul rindo sozinho em seu quarto. Eu ri. John olhou-me.
-Diga...
-Pensei numa cena aqui... Paul rindo sozinho em seu quarto. - Olhei Paul. -Devo parabeniza-lo.
-Por que?
-Depois eu te digo... - Pisquei pra Paul e ele sorriu curioso.

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